Tuning abre portas para mecânicos brasileiros no Japão

Participação de brasileiros em torneios de derrapagem aumenta procura por mecânicos. 

Da mesma forma que o variado mercado automotivo impulsionou os brasileiros que moram no Japão a personalizarem seus veículos, a moda do tuning e as competições de drift abriram o mercado para mecânicos brasileiros especializados em modificações. Testemunhou-se, então, a abertura de dezenas de oficinas mecânicas e lojas de peças por proprietários brasileiros, que ganharam a preferência de seus compatriotas que procuram serviços especializados.

E como eles se tornaram entendidos no assunto e respeitados no ramo? A resposta é quase sempre a mesma: modificando o próprio carro e praticando o drift. Não é coincidência que donos de algumas das oficinas mais respeitadas do país entre os brasileiros estejam também entre os melhores competidores. Também não é por acaso que todos sejam fãs incondicionais de carros, velocidade e adrenalina.

O proprietário de oficina e praticante de drift Marcelo Lopes Yoshimoto, de 35 anos, está no Japão desde 1996 e pretendia ficar só dois anos no país, mas se ‘apaixonou’ por seu trabalho com carros e desistiu de retornar ao Brasil. “Eu já trabalhava com mecânica no Brasil, mas quando vim para o Japão, trabalhava em fábrica e não tinha tempo para mexer com isso. Um dia mandei meu carro para consertar e não gostei do serviço.

Então eu mesmo arrumei e, então, pessoas próximas começaram a me pedir alguns serviços. Depois abri minha oficina e até hoje eu continuo aqueles clientes”, conta Yoshimoto. A entrada de Marcelo Yoshimoto no ramo de carros modificados se deu, no entanto, após assistir a uma competição de drift. “Um amigo me levou ao porto para mostrar como era e eu ‘endoidei’. Na época, eu tinha uma BMW automática, que não serve para competir. Eu tive muita vontade de fazer aquilo e comecei a me interessar.

Eu ia sozinho durante a semana e ficava escutando o barulho do motor para me inteirar e acabei aprendendo.” Fabio Katio Suguihama, de 28 anos, fã de tuning e responsável pelas modificações de seu próprio carro, concorda. “Isso é como pão com manteiga. Depois que você descobre, quer sempre mais. Muitos brasileiros que já eram mecânicos ou sabiam sobre o assunto acabam preparando o próprio carro. Depois disso, alguns abrem sua própria oficina.”

Entre os motivos do sucesso profissional destes mecânicos está também uma barreira que separa o brasileiro de muitos aspectos da cultura japonesa: o idioma. Grande parte das pessoas que se mudam para o Japão aprende apenas o necessário para o dia-a-dia e tem dificuldade para falar sobre um assunto tão técnico como mecânica.

“Normalmente a pessoa pede o serviço para um mecânico brasileiro por causa do idioma. Ele vive o dia inteiro na fábrica, então aprende só o básico do japonês. Em minha oficina, 90% dos clientes são brasileiros. Desta forma, fica mais acessível para eles, que às vezes não sabem explicar coisas muito específicas”, conta Fabio Akira Oishi, que também faz parte da lista dos proprietários e competidores.

Oishi tem 26 anos e mora há dez no Japão, onde aprendeu seu ofício de mecânico. A exemplo de seus colegas, ele divide o tempo entre o trabalho e seu hobby preferido: participar de torneios de drift. “Enquanto tiver dinheiro, estou correndo. Participo de uns dez eventos por ano. O número de campeonatos está crescendo e acredito que, neste ano, muitas portas vão se abrir para brasileiros.”

O competidor faz questão de lembrar que, aos poucos, o drift vai sendo apresentado ao Brasil. Feiras de automóveis e torneios de arrancada já apresentam demonstrações de ‘derrapagem’ como atração. “Bom seria se o drift pegasse no Brasil e eu pudesse voltar. Agora, além de algo que faço porque gosto, o drift é meu trabalho. Então eu só poderia sair do Japão quando a modalidade estivesse forte no Brasil.”