Diários de Despedida: Curitiba

Normalmente vou de carro nas provas em Curitiba, mas desta vez, como já estive lá há duas semanas, em seguida fui para a prova de Brasília, onde peguei uma puta gripe, e o Buko, um grande amigo e parceiro que mora em Curitiba, me ofereceu um carro para usar na cidade. Não tive dúvida: resolvi ir de avião. Também porque o problema é voltar para São Paulo depois, a estrada é um saco e a gente acaba a corrida e pega a estrada meio adrenado.

Começou que o vôo atrasou duas horas na ida… O aeroporto de Curitiba ficou fechado até às 11h da manhã e os vôos programados para cedo entraram na fila. O meu estava marcado para às 13h. Quando finalmente pousei em Curitiba, fico sabendo que minha bagagem foi extraviada. Levo sempre duas malas: a de corrida e outra de roupas pessoais. A que extraviou foi a segunda. Chegoi no meu hotel de noite, por volta de 23h. Ou seja, já começou tudo errado.

Em função disso, pela primeira vez depois de muitos anos não passei no autódromo na quinta-feira, pois além dos problemas aéreos, tinha um compromisso com um patrocinador local, no qual também cheguei atrasado. A quinta é o dia que reservo para reconhecer a pista, providenciar documentações, me inteirar de tudo, já que na sexta-feira, cedo, já começam os treinos.

Bem, na sexta fomos para os treinos. A expectativa era grande, pois nas duas corridas anteriores, por motivos diversos, não conseguimos marcar pontos, e minha maior preocupação no momento é garantir minha equipe para o ano que vem. Terminamos o dia na 27ª posição, a equipe buscou vários acertos, e quando colocamos pneus novos o carro não respondeu. Dia difícil, desanimador…

Sábado de manhã, a classificação. Muitas vezes acontece de nos treinos o carro não render, mas uma mexida aqui, outra ali, e no dia seguinte temos uma boa surpresa. Mas, infelizmente, não foi o que aconteceu. O carro melhorou um pouco, mas nos classificamos na 22ª posição. Outro dia difícil, a equipe abatida.

Claro que o fato de não estar competitivo e ainda nessa condição, de ter de pontuar, me deixa preocupado, apreensivo… Mas os muitos anos de experiência, aliado ao meu atual desprendimento — sinceramente, não tenho de provar mais nada para ninguém — e a presença de amigos dando força, energia positiva, amenizaram o meu estado de espírito. Confesso que em outras épocas, estaria intratável.

Agora, sobre corridas no anel externo em Curitiba, como disse em várias entrevistas, particularmente não gosto. Acho que esse traçado — duas retas e duas curvas — nivela por baixo, além do que é propício a acidentes, principalmente na primeira curva, que é estreita e só passa um carro por vez.

Mas tenho algumas histórias de corridas no anel externo, em que saí lá de trás e me dei bem. Tenho uma muito boa, numa época em que a categoria era bem mais fraca, corríamos com os Omega. Do jeito que a categoria está agora, nessa nova configuração, lembro de uma que larguei em 24º e terminei em quarto, baita corridaça!, mas em função de muitos safety-cars. Eu passava um bolo, rolava um acidente, entrava safety-car, juntava tudo, e conseguia passar mais alguns, e assim fui.

Nesse tipo de corrida você só passa o cara em duas situações: se ele erra na sua frente ou oportunismo, posicionamento bom na pista. Eu me posiciono bem, espero o cara fazer uma besteira na frente, talvez numa disputa, sobra pra mim e passo. Inclusive na última relargada nessa corrida, passei alguém no final da reta por fora, uma manobra linda e acabei em quarto. Confesso que no fundo, tinha esperanças de que isso pudesse acontecer no último domingo…

Agora vou relembrar a corrida memorável em Curitiba: 1997, eu corria pela Action Power. Paulo de Tarso era o chefe e o Meinha, o preparador. Fiz a pole, o Xandy Negrão, que era meu companheiro de equipe, foi segundo. Na vistoria, depois da classificação, os comissários constataram que meu carro estava 600 gramas abaixo do peso. Eu tenho certeza que era um erro da balança do autódromo, mas não interessa, o que vale é a balança do autódromo. O erro foi da equipe de não ter checado o carro na balança que é a oficial.

Fui desclassificado, larguei em último. Tinham uns 27 carros largando. Fui para o hotel, PUTO, muito puto! À noite, fui jantar com o Xandy e um pessoal, até tomei vinho, estava fodido mesmo… No dia seguinte amanheceu a maior chuva. Fizemos o warm up de manhã cedo — naquela época tinha warm up —, e já enfiei mais de um segundo no segundo colocado.

Largou. Eu lá atrás, vim durante muitas voltas num vôo totalmente cego, não enxergava nada, nada, nada. Era chuva mesmo, forte. E vim passando o pessoal de tudo que é jeito, tudo que é lado. Ah, tem um detalhe que aconteceu antes, vou abrir um parênteses. O Meinha, como disse, era o preparador da equipe, e é um cara super, hiper, máster conceituado e perfeccionista. Quando fui desclassificado, ele ficou super mal, não sabia aonde enfiar a cara.

Bem, voltando a corrida, chegou um momento que o Xandy estava em primeiro, o Paulão em segundo e eu em terceiro. E o Meinha falava no rádio: "Ô, Ingo, ta ótimo, manera aí, tá chovendo muito, tá bom." E eu passei o Paulão no final da reta, depois passei o Xandy, fui para primeiro e continuei abrindo. E o Meinha: "Pára, desacelera!" Enfim, ganhei a corrida. Foi uma alegria geral na equipe!

Aí aconteceu um negócio, que de certa forma me revolta até hoje. As pessoas não aceitam ver um cara ganhar corrida da maneira como ganhei. Tanto é que quando parei no parque fechado, alguns pilotos de outras equipes deitaram embaixo do meu carro para ver que tipo de pneu eu estava usando, porque durante a corrida surgiu um boato nos boxes que os meus pneus eram especiais. Porra, desculpa de aleijado é muleta, né? Levaram um puta pau e ao invés de pensar "o que posso fazer para melhorar?", vão falar que o meu carro tava fora. Na hora nem me toquei porque estavam olhando embaixo do meu carro. Aí viram que os pneus estavam literalmente, exatamente, normais e que foi uma puta vitória, mesmo.

Mas para encerrar, e voltando ao presente, esse foi um fim de semana bastante complicado. Na corrida, caprichei na largada, subindo da 22ª para a 15ª posição. Estava em 11º, quando, infelizmente, após o pit stop para abastecimento, ao retornar para a pista, tive o primeiro incidente. No final da reta, ao defender minha posição do Nonô Figueiredo, acabei batendo no Felipe Maluhy, que eu não tinha visto, pois ele estava do lado esquerdo do Nonô. Foi um acidente de corrida, que lamentavelmente afetou meu carro. Depois deste acidente, que fez com que perdesse muitas posições, ainda acabei sendo abalroado pelo Thiago Marques, de forma que acabei desistindo.

Depois nos boxes, adrenalina baixou e o que ficou foi: "Não vou me abalar. Esse é meu ano de despedida e quero que seja de alegrias. Ainda faltam nove corridas, tem muito pela frente." Ah, e na volta, o avião saiu no horário. Pelo menos isso.

Abraços e até a próxima.