Lendas de frentista sobre motores flex

Lendas de frentista sobre motores flex
A tecnologia flex está completando quatro anos de mercado – a estréia se deu com o Gol Total Flex, lançado em 24 de março de 2003. Desde então, o sistema já faz parte da maioria dos veículos vendidos no país – 78,1% dos automóveis licenciados em 2006 e 83,1% nos primeiros três meses de 2007. Porém, quatro anos depois, será que o consumidor já desvendou todos os segredos dessa tecnologia? Você já chegou ao posto e o frentista lhe disse que o carro flex vicia se usar só um combustível? É verdade que precisa misturar álcool e gasolina de vez em quando? Reunimos aqui essas e outras dúvidas de leitores e proprietários, para ajudá-lo a descobrir o que é fato e mito no mundo do flex.

Ao trocar de combustível, é preciso rodar um pouco antes de desligar o motor.
VERDADE – A central eletrônica do sistema flex requer algum tempo para reconhecer o novo combustível, para assim definir as melhores condições de queima. "Toda vez que a bóia do tanque se movimenta por abastecimento, o sistema de aprendizado da central eletrônica tenta entender o que mudou para definir novos parâmetros", diz Evandro Maciel, diretor do Comitê de Veículos de Passeio do Congresso SAE Brasil 2007. A recomendação dos especialistas é que, ao trocar de um combustível para o outro, deve-se rodar cerca de 5 quilômetros antes de desligar o motor. Assim, quando for dar a partida, a central já saberá com que combustível está lidando. "O software está sempre fazendo comparações das leituras dos sensores com milhões de mapas contidos no banco de dados da central e trabalha de modo seqüencial, ou seja, uma comparação após a outra. Estacionar o veículo logo após o abastecimento com o novo combustível prolonga esse tempo de aprendizado", afirma Henry Joseph Jr., diretor da AEA (Associação dos Engenheiros Automotivos).

É bom misturar às vezes os dois combustíveis ou alternar o abastecimento entre um e outro.
MITO – Se houvesse essa obrigação, o conceito de carro flexível não faria sentido. "Os motores são desenvolvidos para funcionar com qualquer um dos combustíveis ou suas misturas, independentemente da proporção ou freqüência no abastecimento", diz Eduardo Campos, engenheiro da Magneti Marelli, que fornece 47% dos sistemas flex à venda no mercado. É por essa razão que também não é verdade a lenda que diz que se deve abastecer só com álcool no primeiro tanque.

O sistema flex pode se acostumar – e até viciar – se usar apenas um dos combustíveis.
MITO – "Os veículos flex podem passar toda sua vida útil usando somente um tipo de combustível sem qualquer problema", diz Henry Joseph Jr. Há quem afirme que, quando o desempenho com um combustível cai, é preciso "zerar" ou reprogramar a central eletrônica de injeção. Mas essa é apenas uma solução extrema. "O que pode acontecer é que, em determinadas situações, devido a mudanças bruscas de algum parâmetro, o software esteja ainda longe do mapa adequado. Ao se ‘resetar’ o sistema, o que se consegue é que o mapa adequado seja localizado logo."

Um flex nunca tem o melhor desempenho ou consumo, quando comparado ao motor só a álcool ou só a gasolina.
EM TERMOS – Para que o motor pudesse lidar com dois combustíveis tão diferentes, as fábricas tiveram de escolher um meio-termo, mas com uma premissa: "O consumo do flex, quando abastecido com gasolina, é igual ao do mesmo veículo a gasolina", diz Joseph. Entretanto, o flex abastecido com álcool, comparado a um carro a álcool similar, tem consumo superior e potência inferior. E o desempenho rodando com gasolina também é pior. A razão: o poder calorífico menor do álcool – 25% a 30% menos que o da gasolina.

Abastecer um carro só com álcool compromete sua vida útil.
MITO – O flex é a evolução do carro a álcool e, por isso, é dotado de todas as proteções necessárias para suportar a agressividade desse combustível. Todos os componentes que tenham contato com o álcool são projetados para resistir por toda sua vida útil. Portanto, não é verdade que o flex tenha manutenção mais cara. Ao contrário. "O álcool, por não gerar gomas e depósitos, não forma carbonização na câmara, o que mantém o motor mais limpo e não compromete o óleo lubrificante, diminuindo desgastes", diz Joseph.

Carro flex demora mais para pegar, mesmo com o reservatório de partida a frio cheio.
MITO – O sistema de partida a frio dos carros flex, que tem um reservatório extra de gasolina, supre o problema. Em geral o sistema é calibrado para injetar gasolina quando a temperatura ambiente está abaixo de 18 ºC. Mas às vezes pode acontecer de o reservatório estar vazio e o motor ter dificuldade de partida, porque nem todo automóvel tem um sistema de aviso. No entanto, se essa gasolina acabar, não significa que o carro possa sofrer algum tipo de quebra, como muitos acham. No máximo a bateria vai sofrer. "A utilização constante dessa prática pode ocasionar uma grande demanda de carga, principalmente nos dias frios, acarretando diminuição da vida útil da bateria", diz Eduardo Campos, da Marelli.

A gasolina que fica no reservatório de partida a frio envelhece.
EM TERMOS – Depende do carro flex e do combustível que se usa. Alguns modelos não acionam o reservatório de partida a frio quando abastecidos com gasolina – como o Fiat Palio e o VW Gol. Assim, a gasolina do reservatório pode ficar muito tempo armazenada e envelhecer. Para esses carros, deve-se substituir essa gasolina a cada seis meses. Em outros modelos, o combustível não tem tempo de envelhecer. "Nos sistemas mais modernos de controle do motor, é previsto um pequeno consumo de gasolina do reservatório. Assim, quando chegar ao nível mínimo, o reservatório será abastecido com gasolina nova, evitando o envelhecimento", diz Eduardo Campos. É o caso do Honda Civic e do Fit. Independentemente do combustível que se use para rodar no dia-a-dia, é recomendável que o reservatório esteja sempre abastecido, para evitar o ressecamento das peças e formação de depósitos. E de preferência com gasolina aditivada, que dissolve os depósitos que vão se acumulando e mantém a goma formada pela oxidação da gasolina em suspensão, evitando que se deposite.

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Xô, ressaca!
Se alguém disser que o carro flex sofre menos com o combustível adulterado, pode acreditar. A razão é a maior capacidade de processamento da centralina e a proteção extra que as peças internas recebem. Se precisar parar num posto desconhecido, prefira sempre o álcool, que se for batizado causará menos danos ao motor. Isso acontece porque a fraude mais comum no álcool é a adição de água, que é menos prejudicial que a adulteração da gasolina, que é batizada com solventes.

fonte: Quatro Rodas