O motor do mercado. Nunca foi tão fácil trocar de carro.

Nunca foi tão fácil comprar um carro a prazo. Veja como você pode fazer o melhor negócio

A indústria automobilística brasileira tem batido recordes atrás de recordes. Nunca, nem nos momentos mais eufóricos da economia, vendeu-se tanto carro por aqui. Só para comparar, em 2004 foram vendidos 1,6 milhão de automóveis no Brasil. Para 2007, a projeção é de 2,35 milhões, o maior número da história. O crescimento da produção e das vendas é tão grande que vem obrigando fornecedores como siderúrgicas e empresas de autopeças a reduzir suas exportações para atender o apetite das montadoras por matérias-primas.

Milagre? Longe disso. O que vem ocorrendo é um fenômeno facilmente explicável, que pode ser resumido em apenas sete letras: crédito. Cerca de 71% das compras têm sido feitas por consumidores que não podem (ou não querem) desembolsar um grande valor de uma vez só e preferem comprar seus carros usando algum tipo de financiamento, percentual que era de 66% há pouco mais de um ano. Vale tudo. Pode ser crédito direto ao consumidor, conhecido como CDC, podem ser operações de leasing ou mesmo os tradicionais consórcios, que vêm perdendo espaço no mercado para os financiamentos diretos. A ordem dos bancos é emprestar dinheiro.

Planos de 84 meses

Os números do setor mostram a relevância desse mercado. Entre janeiro e agosto de 2007, o total de créditos concedidos para financiar automóveis novos e usados foi de 42,6 bilhões de reais, um crescimento de 30% em relação ao mesmo período de 2006. A estimativa da Associação Nacional das Empresas Financeiras de Montadoras (Anef) é encerrar o ano tendo emprestado cerca de 65 bilhões de reais para a compra de veículos, um recorde histórico absoluto.

Prazos longos, taxas de juros mais baixas e promoções – como não cobrar o frete, especialmente nos carros de luxo – têm feito parte do dia-a-dia do setor. O principal atrativo de vendas é alongar o prazo do financiamento, o que diminui drasticamente o valor da prestação. Há três anos, era difícil encontrar uma linha de financiamento, mesmo para automóveis zero-quilômetro, que superasse os 48 meses. Hoje, os prazos chegam a 84 meses, em alguns casos. Mesmo grandes bancos, tradicionalmente mais conservadores que os bancos de montadoras, têm oferecido até cinco anos para o financiamento do possante. "O prazo médio dos empréstimos era de 34 meses em 2004 e hoje é de 42 meses", diz Luiz Montenegro, presidente da Anef. "Quando se fala em crédito, esse aumento de oito meses é um período interminável."

O volume de empréstimos é tão grande que até preocupa os líderes da indústria. O presidente da General Motors do Brasil, Ray Young, que deixou a direção da filial em 1º de novembro para assumir a vice-presidência de finanças da matriz em Detroit, disse a O Estado de S. Paulo que saía do país com uma preocupação. Segundo Young, o crédito farto para o financiamento, com prazos para pagamento de até sete anos, pode provocar uma crise financeira semelhante à que ocorre atualmente no mercado imobiliário americano. "Pode ser o nosso subprime", diz ele, referindo-se aos problemas com dívidas não-pagas no mercado de crédito imobiliário dos Estados Unidos.

A crise do mercado imobiliário americano foi desencadeada pela inadimplência das hipotecas imobiliárias de alto risco e repercutiu nas bolsas de valores ao redor do mundo no mês de agosto. O governo americano ainda tenta resolver o problema por meio da redução de juros e da concessão de facilidades de crédito às empresas em dificuldades. Montenegro, da Anef, minimiza diplomaticamente os riscos. Quando o total de empréstimos aumenta, é de praxe que a inadimplência aumente mais que proporcionalmente. Afinal, entram no sistema consumidores que nunca tinham comprado a crédito antes e que podem se comprometer acima de sua capacidade de pagamento. "Os bancos não estão aumentando os prazos para perder dinheiro", diz ele. "O sistema financeiro está se esforçando para manter os riscos dentro de um nível razoável e para aprender a trabalhar com segurança nesse cenário de prazos mais longos."

Montenegro ressalta essa mudança porque, nesses empréstimos, o prazo mais longo faz toda a diferença. Quanto mais tempo para pagar, menores as prestações mensais e, obviamente, maior o número de compradores em potencial. Uma simulação em uma das muitas páginas bancárias à disposição na internet mostra a diferença. Suponha que um comprador está interessado em um carro zero de 50 000 reais. Os bancos exigem, em geral, uma entrada de 20%, então ele terá de desembolsar 10 000 reais para começar a conversa. Sobram 40 000 reais, o total que será financiado. É aí que entra o fator tempo. Um rápido cálculo demonstra claramente esse fenômeno.

Quem optar por financiar esse carro em 12 meses vai pagar uma prestação salgada de 3745 reais. Se resolver esticar esse crédito para 36 meses, vai pagar cerca de 1 533 reais por mês. E se for muito paciente e optar pelo prazo mais longo, de 60 meses, vai pagar a prestação muito mais amigável de 1 107 reais por mês. Esse é o principal atrativo, que trouxe novos participantes ao mercado de veículos. O prazo mais longo permitiu uma prestação menor e tornou o carro financiado acessível ao cidadão de classe média baixa. Como esses consumidores em potencial existem em grande quantidade, sua entrada no mercado provocou essa explosão nas vendas. "O valor menor da prestação permitiu que muito mais gente pudesse comprar carros financiados", diz o consultor Marcos Crivelaro, especialista em finanças. "O problema é que as pessoas olham apenas o valor da prestação, e não fazem contas de quanto vão pagar no total."

O perigo das taxas

Deixar de fazer essa conta leva o consumidor a tomar grandes sustos. Voltando ao exemplo acima. O comprador que optou por 12 parcelas vai pagar pouco menos de 55 000 reais ao todo. Ou seja, um acréscimo de 10% sobre o valor do carro à vista. Se esticar o financiamento para 36 meses, vai pagar mais de 65 200 reais – um desembolso 30% superior. E se for em busca apenas da menor parcela e financiar sua compra por 60 meses, o comprador deveria preocupar-se com o espaço na garagem, pois na ponta do lápis estará comprando um carro e meio. Vai desembolsar cerca de 76 000 reais, ou seja, 53% a mais do que gastaria para comprar seu carro à vista.

Essa conta foi feita sem incluir outros "extras" cobrados pelos bancos. Ao contrário de alguns itens nos carros, esses "extras" não são opcionais, mas obrigatórios. Por exemplo, o candidato terá de arcar com tarifas como a Taxa de Abertura de Cadastro (TAC), que se destina a cobrir alguns dos custos operacionais do banco – como pesquisar se o nome do candidato aparece nos cadastros de maus pagadores e verificar sua identidade e seu endereço. Na ponta do lápis, a TAC costuma ser pesada, podendo representar até 2% do total financiado, em especial nos modelos mais básicos.

Para os felizardos que podem comprar o carro à vista, parabéns. Nessa situação é possível negociar um desconto maior ou obter vantagens como licenciamento ou seguro por conta do vendedor. Se esse for o seu caso, ótimo. Procure o melhor preço e negocie sem dó nem piedade, pois quem tem dinheiro na mão pode obter condições muito vantajosas.

Claro, poucas pessoas podem se dar ao luxo de desembolsar vários milhares de reais de uma só vez, especialmente o comprador iniciante, que está em busca do seu primeiro carro, em geral um modelo básico ou um carro usado. Se esse for o seu caso, a recomendação dos especialistas é tentar reduzir a fatia financiada ao mínimo indispensável.

Seguro e IPVA "grátis"

Voltando ao exemplo acima, do carro de 50 000 reais financiado por 36 meses, que é o prazo recomendado pelos profissionais do mercado. A maioria dos bancos exige uma entrada mínima de 20%, ou 10 000 reais. Pagando em 36 meses, o consumidor terá de gastar 1 533 reais todo mês durante três anos, pagando mais de 65 000 reais, incluindo a entrada. Se cavar mais fundo no bolso e pagar 20 000 reais de entrada, o cliente vai deixar de gastar quase 400 reais por mês. A prestação mensal cai para 1 150 reais e o total financiado encolhe para 61 400 reais, uma economia de cerca de 4 000 reais. Dá para pagar o seguro e o IPVA durante pelo menos dois dos três anos de financiamento, o que faz uma enorme diferença. Finalmente, se conseguir vender um carro já existente, raspar a poupança, rifar a prancha de surfe e conseguir juntar 30 000 reais para dar de entrada, a prestação cai para 766 reais e o valor financiado total encolhe para 57 500 reais.

Moral da história: vale a pena, sim, aproveitar as facilidades de crédito oferecidas pelos bancos para adquirir um carro ou comprar um modelo mais moderno ou mais sofisticado. A regra de ouro, aqui, é moderação. Quando bem usado, o crédito é uma excelente ferramenta para conseguir o que se deseja. Porém, exagerar no prazo ou desejar um carro que não cabe no bolso é receita certa para dores de cabeça financeiras – tudo o que você quer evitar na hora de ir ao trabalho sem ter de se ensardinhar no péssimo transporte coletivo ou durante o passeio de fim de semana. Nas páginas a seguir, você encontra uma análise dos principais planos de venda de automóveis zero-quilômetro financiados e as recomendações dos especialistas para usar bem o crédito.

Financiar é sempre uma ótima maneira para conquistar seu próximo carro, mas lembre-se sempre de optar por planos que caibem em seu orçamento.

Fonte: Quatro Rodas