Organismo em emergências

É noite e você dirige em uma pista de mão dupla. Decide iniciar uma ultrapassagem, depois de avaliar favoravelmente as condições. Iniciada a manobra, ainda na contramão, um carro com as luzes apagadas sai repentinamente do acostamento e corta sua frente. Já pressionando o pedal do freio, você percebe que não haverá tempo e distância para parar. Seu coração dispara, a respiração acelera, seus músculos enrijecem e o corpo fica todo arrepiado. Por fim, consegue desviar e voltar para a faixa em que estava. A manobra parece ter demorado uma eternidade, impressão causada pelo pavor que faz o corpo reagir de forma intensa. Mas o que acontece com nosso corpo diante de uma situação de tamanho estresse?

Trata-se do medo da morte, um dos piores que um ser humano pode sentir. Quem afirma é o fisiologista Newton Canteras, da Universidade de São Paulo. “Tudo o que vem em rota de colisão provoca uma reação instintiva do nosso corpo, que se assemelha à de nossos ancestrais quando deparavam com um oponente.” É claro que hoje os motivos de apreensão são outros, mas o medo continua servindo ao mesmo propósito da época em que um homem das cavernas tinha de correr quando encontrava um predador.

O cérebro é o primeiro órgão a ser acionado diante do perigo. Ele dá início ao processo para que o corpo se defenda ou ataque o inimigo. “O corpo desencadeia ações que ativam a produção de hormônios como a adrenalina”, diz o médico Dirceu Rodrigues Alves, diretor da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet). “Isso deixa o indivíduo em estado de alerta e em condições de reagir.”

Nossos músculos, então, passam a receber mais oxigênio, o que nos permite dobrar nossa capacidade de força para, por exemplo, pisar com tudo no freio. Um homem de 80 kg costuma aplicar uma força de até 30 kg no pedal. Ameaçado por um caminhão, isso pode subir para até 60 kg. “Nessa hora, além do freio, o motorista tende a pressionar também o volante com toda essa força acumulada”, afirma Rodrigues Alves.

Trauma
O tempo que levamos para reagir à ameaça também diminui e varia de acordo com o motorista. Um jovem saudável leva aproximadamente 0,75 segundo para definir uma ação. Mas esse tempo pode aumentar para 2 segundos se o condutor estiver sob efeito de álcool ou drogas.

Passado o susto, podem aparecer sintomas como dor de cabeça, fadiga, tremedeira e outros. Se eles persistirem por mais de 30 dias, é aconselhável procurar ajuda. “Isso já caracteriza um quadro de estresse pós-traumático”, diz a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da International Stress Management Association no Brasil (Isma-BR), associação dedicada à prevenção e tratamento de estresse. Em alguns casos, a situação pode desencadear um medo de dirigir.

Foi o que aconteceu com a maquiadora de Curitiba (PR) Ana Paula Santos, 24 anos. Desde os 18 anos ela lida com o pavor ao volante devido a um acidente de trânsito. “Mesmo estando no banco do passageiro no dia da colisão, fiquei com trauma de guiar e até de andar de carro”, afirma ela, que só conseguiu se libertar da fobia em novembro deste ano, depois de buscar tratamento. “Dirigir sozinha é uma sensação inexplicável de liberdade e independência.”

AMEAÇA
Os músculos ficam mais tensos e os pelos, eriçados. Daí vem o arrepio. Essa reação não tem função no homem moderno. É apenas uma herança de nossos ancestrais macacos, que pareciam maiores e mais assustadores nessa condição.

GESTÃO
O sistema digestivo é paralisado a fim de guardar energia para uma emergência. Isso provoca redução da produção de saliva, o que dá a sensação de boca seca.

PERIFERIA
Com o sangue direcionado para os órgãos vitais, outras áreas do corpo ficam com a irrigação sanguínea reduzida. Isso explica por que a pessoa fica pálida e com mãos e pés gelados.

COMANDO
Diante de uma ameaça, o hipotálamo (A), parte do cérebro que funciona como um despachador de hormônios, ativa a glândula hipófise (B). Ela, por sua vez, produz o hormônio ACTH, lançado na corrente sanguínea. É ele quem vai ativar as glândulas suprarrenais.

PREPARAÇÃO
Localizadas acima dos rins, as glândulas suprarrenais (D) são estimuladas a produzir os hormônios adrenalina (A), noradrenalina (B) e cortisol (C), potencializando a reação

AQUECIMENTO
Esses hormônios entram na corrente sanguínea e provocam aceleração de batimentos cardíacos e aumento da pressão arterial para levar mais oxigênio (A) aos músculos. Isso os deixa aptos para, por exemplo, apertar com o dobro da força o pedal de freio.

CONCENTRAÇÃO
A vazão de sangue no interior dos vasos (A) aumenta a irrigação dos órgãos vitais. Com isso, extremidades como mãos e pés tendem a receber menos sangue (B). Isso ajuda a reduzir sangramentos em caso de ferimentos superficiais.

ABASTECIMENTO
A respiração se acelera e a frequência cardíaca sobe. A média de inspirações e expirações pode chegar a 40 por minuto, o dobro do normal. Os brônquios se dilatam para conduzir mais oxigênio para onde mais se precisa: coração, cérebro e músculos.

INFORMAÇÃO
As pálpebras e as pupilas se dilatam, principalmente em ambientes com pouca iluminação. Assim, mais luz entra nos olhos e o assustado enxerga melhor o que está à frente. Os músculos do rosto se contraem.

UFA…
Nosso organismo não é mais o mesmo depois de um susto como esse. Mesmo que o motorista não sofra um único arranhão. O corpo demora um tempo para voltar ao normal e começa a se restabelecer gradualmente. Um dos sinais mais comuns dessa recuperação é o clássico tremor das pernas, típica reação pós-estresse. Esse sintoma é resultado da contração dos músculos que nos conferem equilíbrio. O que poucos sabem é que isso ajuda a queimar a energia acumulada e o excesso de adrenalina produzida pelo corpo. Logo depois, vêm a fadiga e a indisposição. Afinal, boa parte dos órgãos teve de trabalhar muito durante o estresse. Como gastamos muitos nutrientes nesse processo, é comum também nos tornarmos compulsivos por comida e bebida, como forma de repor o que foi perdido. diante do perigo.