QR 50 anos: Os carros de 2060

Como será o carro daqui a 50 anos? Experimente somar várias tecnologias com potencial de chegar ao mercado nas próximas décadas e terá um veículo espetacular. Não haverá volante, pois o computador de bordo, interagindo com as informações do GPS e dos transmissores instalados nas vias, saberá conduzir o veículo sozinho, by wire. Não se preocupe com as curvas e os outros carros, pois os sensores evitarão acidentes com mais eficácia que o falível corpo humano. Tampouco pense na poluição: o motor elétrico, alimentado por células solares no teto, manterá limpos o planeta e sua consciência. Quanto ao conforto, relaxe. A cabine mais parecerá uma sala de visitas, onde você poderá contemplar a paisagem pelas grandes janelas panorâmicas, conversar com os outros passageiros, assistir a filmes, participar de videoconferências, navegar na web ou até ler uma revista impressa em papel. Revolucionário, não?

“Isso já existe: é o metrô”, diz o designer Nelson Lopes, que trabalhou na Volkswagen na Alemanha e hoje atende clientes automotivos em seu escritório em São Paulo. “Nem todo mundo vai gostar de andar por aí numa sala de estar ambulante. E as pessoas ainda adoram dirigir, querem ficar no controle. Isso dificilmente vai mudar.” Ironias sobre uma automatização total do carro são comuns entre profissionais da indústria e ilustram uma encruzilhada no caminho do avanço tecnológico no setor. De um lado está o veículo cada vez mais autônomo e politicamente correto, destinado a livrar o usuário do pesadelo de dirigir nas cidades engarrafadas, oferecer mais segurança e preservar o ambiente. De outro, a proposta esportiva, ainda preocupada com estética, velocidade, potência e outros elementos ligados ao prazer de dirigir.

As tecnologias acima já existem, ainda que não estejam no mercado em grande escala. E a “sala de estar ambulante”, embora não exista, já tem ao menos um nome: é o Autonomobile, carro-conceito apresentado em 2009 à indústria e à imprensa americana pelo estúdio Mike & Maaike, da Califórnia – mais conhecido pelo projeto do G1, primeiro smartphone com sistema Android. Justamente por não ter ligação com a indústria automotiva, os designers tiveram grande liberdade de criação, sem os limites de custos ou das plataformas atuais das montadoras. O estúdio diz que o Autonomobile poderia virar realidade em 2040. É difícil prever se ele será viável comercialmente, mas seu projeto, de qualquer modo, é um resumo das tendências que deverão definir o automóvel do futuro.

Embora explorem essas tecnologias em seus carros-conceito, as grandes montadoras não se arriscam a prever modelos para 2060. Consultada, a BMW, por exemplo, afirma que “50 anos é tempo demais” para fazer estimativas precisas. Mas lembra que programou para 2013 a comercialização de seu carro elétrico, o Megacity. O motor elétrico já mostra ser uma das tendências que vão vingar – graças principalmente à necessidade de desenvolver e utilizar energia limpa em todas as cadeias produtivas e não só na dos veículos. Há ainda a célula de hidrogênio, por enquanto inviável por causa do custo. Daí a deduzir que o motor verde substituirá o motor a combustão vai uma grande distância. O carro elétrico ainda tem pouca autonomia e falta infraestrutura para a recarga das baterias. “Nas próximas décadas, não vejo a supremacia do motor elétrico, e sim a disseminação do híbrido”, diz Fernando Trujillo, analista da consultoria CSM.

O desenvolvimento das tecnologias verdes inclui ainda novos materiais, mais leves e resistentes. O menor peso do carro, afinal, reduz consumo e emissões. Um dos materiais mais promissores é o carbono – que, no Megacity, aparecerá pela primeira vez na carroceria de um carro comercializado. Plásticos especiais e outros materiais desenvolvidos com a ajuda da nanotecnologia também deverão ganhar espaço. “A redução de peso é uma questão de sobrevivência para a indústria automotiva”, afirma Milton Belli, engenheiro da Lobini, fabricante brasileira de esportivos fora de série. “Com cada vez mais sofisticações, o peso dos veículos vem aumentando muito, o que eleva custo e consumo.” Novos materiais também oferecem a possibilidade de novas formas. Um exemplo é a “pele” do Gina, protótipo da BMW que traz um tecido especial no lugar do metal da carroceria. As quatro partes da estrutura podem mudar de formato por meio de sistemas eletro-hidráulicos. “Projetos como esse são plausíveis e desejáveis”, diz Nelson Lopes. “Os desenhos atuais são muito presos aos moldes das montadoras e qualquer dobra a mais nas chapas implica novos custos. Uma geometria variável seria muito interessante do ponto de vista do design.”

Um conjunto de tecnologias que tem lugar garantido nos grandes mercados é a que envolve a eletrônica e a comunicação. Ninguém duvida que recursos via GPS e computadores de bordo serão cada vez mais completos. Além de mapas e indicação de rotas, oferecerão tudo o que o PC doméstico já oferece, como navegação na web – incluindo mensagens instantâneas e grande variedade de serviços online – e bibliotecas de música e vídeo. A conectividade ampliará a noção de comunidade dos usuários ao permitir a comunicação entre eles e disponibilizar informações instantâneas sobre o trânsito. E muitos esperam uma revolução na segurança, com a combinação das informações de GPS e a ação cada vez mais precisa de equipamentos de detecção e desvio de obstáculos.

Mais futurista nessa área é a condução totalmente automática, sem motorista, bastando só que o usuário determine o destino por comando de voz. Ainda que alguns resistam à ideia, há indícios claros de que o auxílio à direção terá boa aceitação – especialmente entre os que querem mais sossego na viagem até o local de trabalho em cidades congestionadas. A automatização foi um dos recursos mais aceitos entre os participantes do projeto Fiat Mio, pioneira plataforma online concebida pela filial brasileira para que os usuários criassem seu próprio carro. Quase 70% dos participantes disseram que deixariam de dirigir seu veículo para realizar outras atividades no trânsito.

A plataforma do Mio, que deu origem ao carro-conceito FCC III, a ser apresentado pela Fiat no Salão Internacional do Automóvel deste ano, é um exemplo concreto de outra tendência do automóvel do futuro: a influência direta do usuário nos projetos. Segundo Adriano Silva, responsável pelo estudo “O Carro do Futuro”, realizado pela Fiat para dectectar tendências do setor, a plataforma gerou 10.000 ideias de 16.000 visitantes distintos cadastrados.

Carro de uso coletivo
Diante das expectativas diferentes sobre utilidade e prazer, em mercados e culturas diferentes, quem decide o que vale é quem compra o carro. Ou até quem não compra, se considerarmos outra tendência, a do uso coletivo do veículo. Numa versão universalizada do “rent a car”, os usuários retiram o veículo em uma central apenas quando precisam. É o carro como serviço, não mais como produto. Um serviço online, Zipcar.com, já está em funcionamento e permite a reserva de veículos em 50 cidades da América do Norte e da Grã-Bretanha.

De novo, a disseminação da ideia depende de mercados e culturas. “No Brasil, o consumidor resiste à visão do compartilhamento. O bem mais desejado do país depois da casa própria é o carro, produto que ainda tem enorme potencial de crescimento nos mercados emergentes”, diz Letícia Costa, que trabalhou vários anos em consultoria da indústria automobilística antes de se tornar coordenadora do Centro de Pesquisa em Estratégia do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), de São Paulo. “As tendências da utilidade e do prazer continuarão convivendo, mesmo daqui a 50 anos”, afirma Letícia. “Até o mesmo usuário pode ter dois comportamentos – um no trânsito para o trabalho, outro no lazer no fim de semana.”

Assim que o estúdio Mike & Maaike divulgou o conceito do Autonomobile, prevendo que ele poderia chegar às ruas em 2040, as críticas ao desenho em forma de sala de estar e à falta do motorista, principalmente por parte dos admiradores da direção esportiva, se multiplicaram. “Melhor assim”, diz um dos proprietários do estúdio, Mike Simonian. “A ideia era mesmo provocar o debate. Queremos que as montadoras, governos e comunidades questionem a função do carro e a experiência da mobilidade no futuro.”

O que determinará se veículos como o Autonomobile – ou invenções totalmente diferentes do que conhecemos – existirão em grande escala não será tanto sua viabilidade técnica quanto o mundo à sua volta e o desejo do consumidor. Mais provável é que, nas próximas décadas, diferentes tecnologias convivam em diferentes combinações nos veículos. O desafio para o carro esporte, lembra Milton Belli, será assimilar as tecnologias verdes para se tornar aceito por uma base maior de consumidores. Especialistas concordam que a indústria encontra-se em um momento de revisão de conceitos. Em momentos assim, os possíveis caminhos se bifurcam. Mais adequado que falar no carro do futuro é falar em carros do futuro. Quais deles irão mais longe, só o tempo vai dizer.
Fonte:QuatroRodas.com.br