Mulheres na “boleia”

Elas não tem medo de cara feia, enfrentam desafios e vencem o preconceito em uma profissão que era coisa para “macho”.

O número de mulheres atrás de um volante aumentou em 30% nos últimos cinco anos, de acordo com o Departamento de Trânsito do Estado do Paraná (Detran/PR). Para se ter ideia, dos mais de cinco milhões de motoristas habilitados no Estado, cerca de 1,7 milhões são do sexo feminino. E esqueça aquela velha história de sexo frágil – elas “pilotam” até veículos pesados e deixam muito “marmanjo” “no chinelo”.

A motorista do transporte coletivo Maria Dario é uma delas. Ela conta que desde cedo mantinha o sonho de ganhar a vida atrás de um volante e que com o passar do tempo essa vontade só aumentou, ainda mais depois que dirigiu o Mercedes 1113 de seu tio: “Foi emocionante, fiquei com aquele friozinho na barriga mas mandei ver. Daí para frente alimentei o sonho de dirigir veículos pesados”, relembra.

Mas o caminho foi longo até tomar coragem de abandonar a antiga profissão de salgadeira – que mantinha por 20 anos no Litoral – e pegar a estrada de vez. Na época seus quitutes faziam sucesso com a clientela e sua família achava que o sonho que tinha era loucura. O incentivo partiu dos filhos e apesar das críticas dos parentes, foi atrás do que queria.

Seu filho mais velho, Cleber, foi quem deu o pontapé inicial: “Ele sabia do meu objetivo e na época viu uma mulher dirigindo um caminhão da Braspress, aí me ligou empolgado contando que a empresa contratava mulheres sem experiência e mais que depressa corri atrás de mudar a categoria da minha CNH”, explica a motorista.

Em seu primeiro emprego como motorista de caminhão, Maria Dario  venceu desafios e hoje se sente realizada. Crédito da Foto: Arquivo Pessoal/ Maria Dario.
Em seu primeiro emprego como motorista de caminhão, Maria Dario venceu desafios e hoje se sente realizada. Crédito da Foto: Arquivo Pessoal/ Maria Dario.

Outra colega de profissão que também foi atrás do que queria é Shirlei Rosa. A paixão por veículos pesados nasceu ao ver sua mãe trabalhando, uma vez que era cobradora de ônibus. Com o falecimento da mãe as dificuldades foram surgindo e ela enxergou na profissão de motorista a chance de se realizar e encarar os desafios.

Shirlei conta que sempre admirou a profissão e após tal perda encontrou forças para superar o momento e ter mais tempo para cuidar da filha, que na época tinha pouco mais de um ano. Nas horas vagas o também motorista Thales Magno Coelho, marido de Shirlei, dava aulas de direção, tudo com o incentivo do patrão que sabia da história e que a ajudou também. Mas como nem tudo são flores, a parte ruim foi ouvir da família que “era louca”.

Mas se engana quem acha que ela desistiu. Há mais de sete anos ela desempenha a função e inspira tanto os colegas de profissão quanto o marido e as filhas. “Eles tem orgulho de mim. Minhas filhas adoram de vez em quando passear com a mãe. Me sinto muito honrada, acho que tudo isso é resultado do meu trabalho pois tento dar o melhor de mim, amo o que faço e quando a gente faz as coisas com amor, tudo é gratificante”, relata.

Há sete anos dirigindo a mesma linha, Shirlei Rosa é motivo de orgulho para a família e colegas de trabalho. Crédito da Foto: Arquivo Pessoal/ Shirlei Rosa.
Há sete anos dirigindo a mesma linha, Shirlei Rosa é motivo de orgulho para a família e colegas de trabalho. Crédito da Foto: Arquivo Pessoal/ Shirlei Rosa.

Para Maria Dario o sentimento não é diferente. Ela explica que ama dirigir esse tipo de veículo e afirma que apesar da responsabilidade ter aumentado, com relação ao tipo de transporte é uma paixão inexplicável: “Isso está na alma, não tem explicação, só sentimento. Amo o que faço e procuro fazer o melhor, pois a vida é o maior patrimônio que existe”, afirma.

Preconceito

Apesar de estarmos em pleno século 21, há quem olhe torto para mulheres atrás do volante. Porém, aquele velho ditado que diz que “mulher ao volante é perigo constante” não passa de boato. É o que apontam os dados da Seguradora Líder, responsável pelo seguro DPVAT no Brasil. De acordo com levantamento divulgado, de todos os acidentes envolvendo vítimas em 2014 apenas 25% foram causados por mulheres contra 75% do sexo masculino.

Porém há quem ainda assim aja com preconceito. Maria Dario relembra que já enfrentou situações embaraçosas mas teve jogo de cintura e seguiu firme no objetivo: “Uma vez um senhor da pré-história desceu do ônibus por que uma mulher estava dirigindo, mas nem dei bola, segui firme na missão. Depois de um tempo esse mesmo senhor voltou e agora sempre pega ônibus comigo e ainda me diz bom dia”, afirma.

E com Shirlei Rosa também aconteceu uma situação parecida. “Uma vez estacionei para o embarque de usuários e um homem se recusou a entrar no ônibus por que era uma mulher que estava ao volante. Disse que esperaria o próximo. Não falei nada, mas fiquei pensando qual seria sua reação no outro veículo já que também era uma mulher quem estava dirigindo e só havia dois ônibus na linha neste dia, pois era final de semana”, conta. E ela ainda brinca: “Será que foi a pé?”.

Mas com a maioria dos passageiros a situação é bem diferente e até amizades surgem durante a correria do dia a dia. Maria conta que recebe convites nas redes sociais e até presentes durante o trabalho. Já Shirlei recebe lanches todos os dias e afirma que quando estava grávida ganhou dos passageiros todo o enxoval da filha. E não para por aí: “Quando saio de férias ou me ausento por doença chegam a me ligar para saber como estou”, relata.

Carreira

Para quem pretende seguir a mesma carreira que elas, as duas motoristas aconselham:

“Não desistam do seu sonho nunca. Corram atrás, não se importem com o que os outros vão dizer ou pensar. Somos tão capazes quanto os homens e ponto”, afirma Shirlei Rosa.

Shirlei Rosa 2
Shirlei Rosa.

“Siga em frente, vá à luta. Nada é impossível, jamais desistam de seus objetivos. Retroceder, nunca e render-se, jamais”, aconselha Maria Dario.

Maria Dario.
Maria Dario.

Deixe uma resposta